Existe hoje um excesso de identidade. Cada gesto vira marca, cada rosto vira produto, cada trajetória é comprimida em um pitch. ЦАСТРО™ nasceu de um movimento contrário — não para fugir da forma, mas para devolver o silêncio a ela.
Há muitos anos, meu amigo Denis Artamonov, que escreve roteiros em São Petersburgo, escreveu meu nome em cirílico sobre um pedaço de papel. Aquele gesto simples permaneceu comigo — não como exotismo gráfico, mas como memória, deslocamento e tradução. Com o tempo, a palavra tornou-se assinatura: uma forma de reconhecer minha trajetória sem precisar explicá-la por inteiro.
Escolhi transformá-la em assinatura porque reúne o que procuro no trabalho visual: síntese, presença, tensão e permanência. Sua tipografia é sólida, direta e deliberadamente áspera. Carrega algo do construtivismo russo, do cartaz polonês, do samizdat, do brutalismo gráfico, do impresso independente, do cinema, da música, do skate e das culturas que se formam fora dos centros de legitimação.
A linguagem que precisa se justificar já perdeu o silêncio.
A assinatura permanece a mesma no design, no branding, no audiovisual, na pesquisa e na docência. O campo de atuação pode mudar; o ponto de vista, não.
Existe nisso uma posição de anti-brand — não como recusa da identidade, mas como crítica à marca transformada em espetáculo permanente. Trabalho com branding e reconheço sua capacidade de organizar sentidos, construir valor e tornar ideias visíveis. Uma marca, porém, não deve substituir o trabalho nem transformar a pessoa em produto.
O ™ que acompanha ЦАСТРО™ é uma ironia seca: marca registrada de algo que não se registra, não se vende e não se torna mercadoria. É o símbolo do sistema apontado de volta para si mesmo — uma assinatura que não precisa ser protegida porque sua força está no gesto, não no registro.
Interessa-me criar condições para que projetos, imagens, pesquisas e processos possam circular, comunicar e permanecer. Uso tecnologia, sistemas e plataformas contemporâneas sem submeter a produção à lógica constante da exposição.
O criador desaparece para que a obra fale.
Menos personagem. Mais processo. Menos promoção. Mais obra.